Não gosto de gente
Se você já disse essa frase ou ouviu alguém perto de você dizer, pegue um café lungo e venha refletir comigo.
Calma, não sou eu que afirmo não gostar de gente.
No entanto, essa é uma frase que tenho escutado com maior frequência das pessoas nos últimos anos.
Recentemente ouvi essa frase de uma pessoa que ocupa um cargo de liderança. A pessoa que deveria inspirar e se dedicar a servir seus pares e colaboradores, afirmou não gostar de gente. Nesta afirmação, existem tantas camadas de discussão que não sei nem por onde começar.
Ouvi certa vez de um cliente, que se você não gostar de gente, não pode empreender, assim como também não pode liderar outras pessoas, ele me disse ainda que antes de termos conhecimento técnico, boas formações e um currículo impecável, devemos gostar das pessoas, porque isso, sim, pode gerar inspiração e mobilização de quem o cerca.
Porém, hoje vejo que as pessoas têm investido bem mais em conhecimento técnico do que em comunicação, inteligência emocional e autoconhecimento.
O que antes era um movimento natural levantar da mesa e tomar um café com um colega do escritório, agora precisa entrar em uma planilha de indicação de desenvolvimento pessoal e profissional dentro das empresas, porque se não for assim, não existirá o bom convívio.
O que será que aconteceu com a naturalidade dos relacionamentos?
Podemos seguir por diversos caminhos nesta discussão, como o uso excessivo de tecnologias e telas que isolaram as pessoas, principalmente os mais jovens; as carreiras cada vez mais tecnológicas e menos manuais; o seguir orientações de personagens do mundo online, que ensinam que é melhor viver em isolamento, olhando apenas para si e menos para o outro; o medo de ter conversas difíceis ou desafiadoras por não saber lidar com frustrações; a imaturidade de quem acredita saber tudo, quando está apenas iniciando a carreira; a sociedade em que está inserido; e/ou de onde se veio.
Bom, temos muitas reflexões para fazermos diante da frase: “não gosto de gente”.
Não à toa, tenho enfrentado mais desafios ao desenvolver novos líderes, porque antes eu os orientava tecnicamente, analisava situações e apontava possíveis ferramentas que poderiam ser utilizadas em determinadas situações.
Tratávamos de situações conflituosas, mas não precisava, em nenhum momento, mostrar o quanto as relações são valiosas, ou o quanto ser um líder inspirador pode mudar a vida de uma pessoa e o meio em que ela vive e como isso retorna para o líder como uma grande conquista, pois estava implícito.
Contudo, hoje muitas coisas mudaram. Isso não é uma queixa, mas me pergunto, em que momento nos perdemos tanto e esquecemos de nossa interdependência?
Você que está me lendo agora, pode não ter uma pessoa que trabalhe diretamente para você, no entanto, também vive cercado de outras pessoas, sejam eles, clientes, fornecedores, parceiros, prestadores de serviços, além de amigos e família, pois precisamos uns dos outros para que essa enorme roda gire e é tão bom.
Particularmente, acredito que quanto maior nosso autoconhecimento e empatia, mais somos capazes de compreender o outro, e ao invés de dizer que não gostamos de gente, podemos dizer, sim, essa pessoa pensa ou age diferente de mim, mas não existe verdade absoluta e essa pessoa vive a verdade dela e eu vivo a minha verdade.
Demorei para conseguir escrever esse texto, mas sabia que ele tinha que sair, porque essa frase gerou um grande impacto sobre mim.
Ter conhecimento técnico é importante, mas nada supera a nossa humanidade, o nosso sentir e o quanto podemos contribuir na vida uns dos outros.
Técnica gera resultados, mas é a humanidade que gera transformação.
Na contemporaneidade há uma hiper valorização do saber técnico, do produtivismo e pouco se fala do sentir, das boas relações, do contribuir para uma sociedade melhor, seja como par de alguém na empresa, como um líder que desenvolve, orienta e inspira ou como um empreendedor que agrega valor na cadeia em que está inserido.
Termino este texto dizendo que estar rodeado de pessoas, é a nossa chance de nos tornarmos melhores e de, também, gerarmos melhores resultados, seja para a empresa que se trabalha, para o negócio que se tem ou para si e quem nos cerca.
Por fim, gosto de gente e não é pouco!









