Resgate da vitrola, resgate da espera
Quanta pressa você tem? O que você considera como urgente? Este texto é sobre o que uma menina de treze anos me ensinou e que me transformou em alguém com muito menos pressa.
Foi no aniversário de treze anos da minha sobrinha, que resgatei lembranças da minha própria infância que me faziam tão bem. Tudo começou quando perguntamos para ela, o que queria de aniversário.
Letícia, uma menina doce e dona de uma grande autenticidade, pediu uma vitrola. Ela nos disse que ao assistir ao filme de Elis Regina, despertou nela o desejo de poder viver um pouco naquele tempo, ouvindo músicas que a levasse para aqueles anos, em que tudo parecia ter menos pressa.
Então, diante deste pedido tão criativo, toda a família se mobilizou para que ele fosse realizado, a mãe comprou a vitrola escolhida com um ar retrô de anos 60, e o restante de nós, o móvel e alguns vinis.
Vindo para casa, após levar Letícia na primeira feira de vinil de sua e da minha vida também, fiquei pensando no quanto era gostoso todo o ritual de ouvir música quando eu era criança, em que meu pai me ensinava aos oito anos, como segurar o vinil, como limpá-lo e direcioná-lo à vitrola, me mostrava também como ouvir a música calmamente, em seguida, me mostrava como virar o vinil sem me queixar do aparente trabalho.
Assim, ao voltar para aquele tempo em que eu parecia ter menos pressa para tudo, pedi ao meu pai para levar sua vitrola, agora parada e quase enferrujada, para casa, junto também trouxe alguns de seus vinis preferidos, como Clara Nunes, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Almir Guineto e Luiz Gonzaga que eram os que mais gostava de ouvir com ele.
Pois bem, uma coisa levou a outra, arrumei um cantinho na estante para colocar a vitrola e comecei a ouvir as músicas em um dia de domingo, exatamente como fazia com meu pai, e isso logo passou a ser meu ritual matinal. Percebi então, que com este ritual fui aos poucos perdendo a pressa, no lugar dela, veio a contemplação de momentos únicos.
Escolher o vinil, abrir a vitrola, retirá-lo de sua capa, limpá-lo para tirar qualquer resquício de poeira, posicioná-lo corretamente, levar o braço da vitrola para a faixa certa, e lá vem o primeiro chiado do disco e tão logo o som abafado ressoa pela sala. As letras das músicas passam a ser observadas, algumas delas tocam o coração e me leva para bons tempos.
Ao desacelerar, passei a me perguntar por que não perder a pressa para outras coisas mais.
Na sociedade que estamos inseridos, parece que tudo o que fazemos exige pressa, tudo é urgente, quando menos esperamos, até simplesmente buscar um copo de água na cozinha, passa a ser uma corrida contra o tempo, porém, o que realmente é urgente?
Somos constantemente atravessados pela pressa do outro, mesmo que o outro também não consiga explicar por que tem tanta pressa. E é justamente essa pressa, que nos faz levar uma vida automatizada, em que não observamos e absorvemos o que nos rodeia, não nos deixa ver que uma árvore floresceu, que um pássaro canta na janela, um sorriso de uma criança na rua, um cachorro que tenta nos chamar a atenção, porque a pressa nos rouba o estar presente, e nos faz viver no futuro.
Essa pressa é a mesma que tem feito muitas pessoas se perguntarem, qual é o sentido de estar aqui. E a falta de sentido, pode ser ocasionada pela falta de sentir.
Diante deste despertar que a vitrola me trouxe, passei a conseguir classificar melhor o que é urgente e apreciar as pequenezas da vida, a compreender que a vida pode ser melhor para mim, se eu estiver disposta a ver e sentir o que me rodeia.
Então, com o ritual da música, vieram vários outros rituais que vem me mudando, dia após dia, o que cessou minhas crises de ansiedade e tornou as minhas noites menos insones.
A vida não passa mais desapercebida, estou completamente inserida nela.
O que é mais impressionante, é que percebo que não preciso ter pressa, pois tudo acontece no devido tempo, os prazos no trabalho continuarão a ser cumpridos, as reuniões continuarão sendo feitas, os problemas serão solucionados, sem que eu precise acelerar para me sentir mais produtiva, aliás, percebi que a pressa não me deixava imergir nos projetos para enxergar os possíveis caminhos a serem seguidos.
Este texto não é sobre a minha vitrola (ou vitrola do meu pai), ele é sobre as coisas que não percebemos ao não desacelerar.
Aliás, deixo aqui a dica de leitura do livro: as coisas que você só vê quando desacelera de Haemin Sunim. Que é uma grande provocação para analisarmos o que estamos perdendo, por termos pressa demais.
Deixo aqui também, um grande agradecimento para minha sábia sobrinha Letícia, que me fez reviver bons momentos e me trouxe de volta o estar no momento presente, mesmo após um dia conturbado no trabalho.
E depois deste texto te pergunto, você tem pressa de quê?









Amei, me fez refletir também. Como é bom ler coisas que fazem a gente pensar. Lindeza, você é muito boa no que faz. Continue